nampula milires min

A promessa era alta. Estava previsto que um militar que fosse presidente da Assembleia de voto receberia no final do escrutínio 150 mil Meticais, vice-presidente 90 mil Meticais e o Secretário da Assembleia que, na maioria dos casos, eram agentes da Polícia vestidos à paisana receberia 70 mil Meticais. Deste grupo, segundo revelaram as fontes militares, o militar e o agente da Polícia da República de Moçambique (PRM) seleccionados tinham uma pistola na cintura em caso de qualquer situação violenta.

 

Eram eleições renhidas. A província de Nampula era tida como bastião da oposição, onde maior parte dos municípios já se encontravam na mão do Partido Renamo. Visando garantir a vitória do candidato governamental, uma equipa central e com integrantes devidamente posicionados nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) desenhou uma estratégia para garantir que a Frelimo e o seu candidato, Filipe Jacinto Nyusi, saíssem vencedores no pleito realizado a 15 de Outubro de 2019. Mais tarde, e como estava previsto pelos estrategas do regime, dados da Comissão Nacional de Eleições (CNE) acabaram confirmando a vitória do candidato do partido no poder, Filipe Nyusi, com 73% de votos. No escrutínio, a Renamo, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM) e AMUSI não foram para além de 21.88%, 4.38% e 0.73%, respectivamente.

 

E na Província de Nampula, o maior círculo eleitoral do país e até às últimas eleições considerado de domínio da Renamo, Filipe Nyusi acabou vencendo com 59%, contra 34,46% de Ossufo Momade, candidato da Renamo; 3,76% do então candidato do MDM, o falecido Presidente Daviz Simango e 1.89% de Mário Albino, do AMUSI.

 

Entretanto, informações em nossa posse e confirmadas por diversas fontes militares que foram usadas no processo e depois descartadas revelam que, durante as últimas eleições presidenciais, legislativas e provinciais foram usados por altos quadros das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) que recrutaram e obrigaram militares de diferentes patentes que estivessem nas mesas da Assembleia de voto em quase todos os distritos da Província de Nampula, como Presidentes das Assembleias de voto.

 

Inicialmente, os militares usados durante a votação foram submetidos a diferentes formações realizadas nas instalações atribuídas ao Serviço de Informação e Segurança de Estado (SISE) em Nampula e nas sedes do partido Frelimo nos distritos, vilas e cidades. O processo a nível das FADM estava a ser coordenado por quadros seniores da instituição, com destaque para um tenente da banda militar em Nampula e outro quadro, que actualmente foi nomeado para um cargo ministerial, em compensação pelos serviços prestados durante as últimas eleições em Nampula.

 

Entretanto, desde 2019 a esta parte, os militares usados e descartados não chegaram a ser pagos os valores prometidos. No entanto, o cenário repete-se. Os militares seniores envolvidos no processo de 2019 reiniciaram o recrutamento para as eleições que se avizinham, mesmo sem terem honrado as anteriores somas. Segundo avançaram fontes militares que pediram anonimato, apenas os agentes da PRM chegaram a receber uma parte dos valores monetários, ou seja, dos 70 mil Meticais prometidos, apenas viriam a encaixar metade.

 

As fontes avançaram que, enquanto militares, não têm como reivindicar, tendo revelado ainda que as eleições gerais de 2019 em Nampula foram ganhas usando meios ilegais e maquiavélicos e que todos tinham orientação de agir fraudulentamente em caso duma manifestação por parte dos populares ou membros dos partidos da oposição. O esquema, contou a fonte, visava a adulteração de resultados e o corte de electricidade, caso houvesse qualquer situação inesperada.

 

Segundo as nossas fontes, verifica-se em Nampula uma forte partidarização no seio dos militares, havendo comandantes de pelotões que vigiam alguns membros das FADM e, em caso de qualquer conduta crítica, o mesmo é ameaçado ou acusado de ser da oposição.

 

Sobre a denúncia e as reclamações dos militares, todas as autoridades a nível da Província de Nampula não se mostraram disponíveis em dar a sua versão dos factos, alegadamente, porque carecem da autorização dos seus superiores hierárquicos. Outros alegaram que não podem falar ao telemóvel, mas, sim, presencialmente. (O.O.)

Fonte: Carta de Moçambique

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