O Ministério Público acusa Saíde Ali Abdala de ter sido o autor dos disparos que mataram o então edil de Nampula, Mahamudo Amurane, na noite de 4 de Outubro de 2017. Ainda de acordo com a acusação, o indiciado agiu em concertação com Zainal Satar, empresário do ramo de construção civil. Os dois foram os últimos a manter contacto com o finado.

Quatro meses para completar cinco anos, eis que o Tribunal Judicial da Província de Nampula começa verdadeiramente o julgamento do chamado “caso Amurane”, para desvendar a incógnita em torno da morte do edil que aconteceu em plena celebração do Dia da Paz.

Em ciências policiais, ensina-se que não há crime perfeito, mas a ciência jurídico-criminal diz que o tempo é o grande inimigo das provas. Seja o que for, o facto é que dois arguidos estão no banco dos réus no Tribunal Judicial da Província de Nampula, indiciados do assassinato do então edil de Nampula, Mahamudo Amurane, na noite de 4 de Outubro de 2017.

De acordo com a acusação do Ministério Público, lida na secção desta quarta-feira, Saíde Ali Abdala era vereador de Feiras e Mercados e teve um desentendimento com o seu chefe Mahamudo Amurane, quando tentou, à revelia, ceder um espaço bem localizado no centro da cidade a um cidadão identificado nos autos por Satar.

“Foi então que o malogrado se apercebeu das atitudes do arguido Saíde Ali. Como consequência, o malogrado, no mês de Agosto de 2017, retirou os poderes ao arguido Saíde Ali, atinentes à assinatura de memorandos de entendimento, passando estes a ser deliberados em colectivos. Desde então, a relação de amizade entre o malogrado e o arguido Saíde Ali deixou de ser de confiança. Inconformado com a retirada de certos poderes, o arguido Saíde Ali, amigo de longa data do arguido Zainal Abdina, empreiteiro com acesso à residência particular do malogrado, concertaram pôr término à vida do malogrado. Para o efeito, traçaram um plano que consistia em tirar o malogrado da casa oficial para um local onde pudesse ser fácil tirar-lhe a vida”, descreveu o procurador Cristóvão Muliaze, lendo a acusação do Ministério Público.

No início da noite do dia 4 de Outubro de 2017, depois de ter dirigido a cerimónia de deposição da coroa de flores na Praça dos Heróis, por ocasião do Dia da Paz, o então edil da cidade de Nampula deixou a residência protocolar e foi à sua residência pessoal na periferia da cidade, com o objectivo de se reunir com Saíde Ali Abdala e o empreiteiro Zainal Abdul Satar, que estava a efectuar obras na casa do edil. Ao sair do encontro, quando acompanhava a dupla, o pior aconteceu: foi assim que o co-arguido Saíde Ali Abdurremane, auxiliado pelo co-arguido Zainal Abdina, efectuou disparo contra o malogrado, tendo, de seguida, desaparecido do local sem socorrer a vítima.

Durante a fase de instrução preparatória, os dois acusados disseram que os disparos tinham sido feitos de frente para trás, mas o relatório balístico provou o contrário.

“Quando feita a reconstituição dos factos, demonstrou-se que os co-arguidos Saíde Ali e Zainal Abdina eram os únicos que se encontravam próximo da vítima e, por sinal, à mesma distância em que o projéctil foi disparado. Após a realização da autópsia e exame cadavérico, ficou demonstrado que a direcção dos projécteis foi de trás para frente, obliquamente de cima para baixo, à curta distância, contrastando com a resposta dos arguidos, únicos que estavam ao lado e à distância sugerida pelo relatório balístico, fotográfico e cadavérico. Perante este manancial de incongruência, só pode resultar fortes indícios para afirmarmos e acusarmos com base nas provas indiciárias aqui colhidas, pois a única relação a ser examinada é a que existe entre um facto e o outro”, concluiu Cristóvão Muliaze.

Nesta fase de produção de provas em sede de julgamento, o Tribunal tem a missão de examinar os factos da acusação, ouvir os arguidos e decidir se são ou não culpados pela morte de Mahamudo Amurane.

Fonte:O País

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