Não são as Forças de Defesa e Segurança (FDS) que aparecem no vídeo, no qual uma mulher (nua) é torturada e depois executada, a tiros (mais de uma dezena), em plena via pública (já privatizada), num dos distritos afectados pelos ataques terroristas na província de Cabo Delgado. A garantia foi dada esta terça-feira, pelo Ministro do Interior, Amade Miquidade, à saída da 34ª Sessão Ordinária do Conselho de Ministros.

 

Segundo Amade Miquidade, o vídeo (chocante e repugnante), que circula nas redes sociais, desde a última segunda-feira, e que levantou uma onda generalizada de repúdio, no país e no estrangeiro, foi gravado e difundido pelos terroristas, com a intenção de subverter a realidade dos factos.

 

“Este vídeo não é o único que os terroristas divulgam. É mais um vídeo que eles divulgam com a intenção subversiva de inverter o acto praticado, dirigido contra as Forças de Defesa e Segurança. Aquele é um acto macabro, inaceitável e desumano. Jamais as Forças de Defesa e Segurança fariam algo parecido”, garantiu o governante.

 

O referido vídeo, com duração de 1 minuto e 58 segundos, sublinhe-se, mostra um grupo de homens, fortemente armados e trajados com uniformes das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM), a perseguir e depois torturar uma mulher (nua), antes de um deles começar a abrir fogo contra a vítima, acto repetido por outros dois integrantes do grupo. Um dos membros do grupo, neste caso responsável pela gravação do vídeo, grita dizendo que a vítima é do “Al Shabaab”, nome atribuído ao grupo terrorista que actua na província de Cabo Delgado. Depois da execução da mulher, o mesmo indivíduo mostra dois dedos em forma de “V” e afirma que “já mataram o Al Shabaab”.

 

Para alguns, o vídeo é da autoria das FDS e os militares envolvidos já estão detidos. Há quem avança que a mulher executada é uma “bruxa”, pertencente ao grupo terrorista e que estava nua porque encontrava-se em mais uma missão de bruxaria. Para outros, o vídeo não pode ser da autoria das FDS, pois, alguns membros do grupo estão trajados com camisetas vermelhas (e não verdes), para além de terem mochilas comuns e não militares.

 

“Queremos, aqui, aclarar que os terroristas envergam uniforme idêntico ao que usam as Forças de Defesa e Segurança. O que os identifica, entre eles, é que nas suas incursões colocam sinais para que entre eles se conheçam. Mas, quando querem realizar a sua propaganda contra o Estado moçambicano, retiram esses caracteres que os identificam e fazem os vídeos para promover uma imagem de atrocidade por quem defende o povo”, explicou o governante.

 

O vídeo, que se diga, chega dias depois de a Amnistia Internacional (AI) ter pedido ao Governo para iniciar uma investigação independente e imparcial sobre a tortura e outras violações graves cometidas pelas FDS, na província de Cabo Delgado. Aliás, “Carta” já reportou, por diversas vezes, as atrocidades que têm sido cometidas pelas FDS nos distritos afectados pelos ataques terroristas, destacando-se detenções arbitrárias e execuções sumárias.

 

“Queremos garantir que os actos macabros que têm sido divulgados são acções de subversão, tendentes a pôr o povo contra as forças que os protegem e nós vamos lutar e combater até lá. Aliás, queremos assegurar que estamos num processo investigativo para saber onde se encontra o núcleo de preparação destes vídeos. Não é a primeira vez que vemos no mundo e no nosso país a serem manipuladas informações, com vista a criar uma desinformação que leve à condenação do nosso país. Recentemente, o governo, perante uma comunicação da comunidade internacional, esclareceu, através de um comunicado, que não havia qualquer relação entre aquelas imagens e as FDS”, defendeu o Ministro do Interior.

 

“Os terroristas, na sua acção macabra, degolando as suas vítimas, esquartejando-as vivas, provocando uma morte violenta, sem piedade, só demonstram o seu carácter brutal e demonstram que, afinal de contas, temos um grupo de indivíduos com intenções desconhecidas”, sublinha.

 

“Há apoios [internacionais] porque recebemos armas e munições”

 

Questionado pelos jornalistas se o Governo pensa ou não em pedir apoio à comunidade internacional, Amade Miquidade respondeu: “os apoios internacionais estão a ser solicitados sim. Recentemente, foi criada a ADIN [Agência de Desenvolvimento Integrado do Norte], com o fito de clamar pela ajuda necessária para os deslocados e para a criação de condições, para que alguns desses jovens não sejam aliciados por promessas vãs. Do ponto de vista militar, nós não produzimos munições, não produzimos armas. Então, quer dizer que há apoios porque recebemos armas e munições para nos defendermos”.

 

Referir que os ataques terroristas, que duram há quase três anos, já causaram a deslocação de mais de 360 mil pessoas e a morte de mais de 1.000 pessoas, entre militares, membros do grupo e cidadãos civis. (Abílio Maolela)

Fonte: Carta de Moçambique

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