Pé boto globalmente considerada como a principal causa de deficiência congénita

Um problema comum, porém, desconhecido. Comum a ponto de ser tido, globalmente, como a principal causa de deficiência congénita. Em Moçambique, os números falam por si e indicam que mais de 27 mil pessoas nasceram com este problema. Chama-se pé boto.

Não são conhecidas as causas específicas para a deformidade, sabe-se apenas que, quando um membro do casal é afectado, há probabilidade de 3 a 4% de o filho nascer com este problema congénito. E se os dois membros do casal forem afectados, o filho tem probabilidade de 15% de desenvolver o pé boto.

Nunca se tinha visto alguém com um problema como este na família de Aldowanda, ela foi a primeira. “Logo que ela nasceu, a médica disse-me que havia nascido com pé boto e encaminharam-nos ao Hospital Central de Maputo. Começámos o tratamento, mas quando íamos fazer a operação, ela começou com complicações de bronquite. Isso aconteceu três vezes, por isso, desistimos”, conta Angélica Mazivila, mãe de Aldowanda.

Não tendo conseguido fazer a operação antes dos dois anos de idade, a vida da jovem tornou-se complicada e só podia andar usando a parte lateral dos pés. Mas isso não era o que a incomodava. Os dias difíceis chegaram quando começou a frequentar o ensino secundário. “Eu não podia falar nada, nem mesmo intervir em situação alguma. Caso tentasse, gozavam com os meus pés”, conta.

O estigma e o preconceito foram tantos que, aos 17 anos de idade, tomou uma decisão difícil. “Decidi fazer uma operação para corrigir os meus pés, por ver a diferenciação que é feita às pessoas. Chegava a um lugar público e as pessoas não se importavam com a roupa que trazia ou com a minha cara, olhavam apenas para os meus pés”, relata.

Depois de três operações dolorosas, o processo ainda não estava terminado. “Houve dias em que tiveram que me dopar, porque as dores eram insuportáveis. O médico havia avisado que não seria fácil e que sentiria muitas dores, mas preferi arriscar e não me arrependo”, lembra a jovem com os olhos encharcados, quase a deixar escapar algumas lágrimas.

Os pés da estudante, que actualmente frequenta o 4º ano do curso de direito, ainda apresentam deformidades, mas, com ajuda de uma muleta, consegue deslocar-se com alguma normalidade, visto que preferiu interromper as sessões de cirurgia que ainda faltavam para não prejudicar os seus estudos.


Fonte:http://opais.sapo.mz/index.php/sociedade.html

Leave a Reply

Your email address will not be published.