O presidente do Desportivo Maputo, Paulo Ratilal, afirma que, apesar da pressão que tem sofrido, não se irá demitir “por causa de 20 arruaceiros”, os quais, segundo ele, não representam a vontade nem o sentimento dos 2.700 sócios do clube em relação à sua gestão.

 Procura-se pela ordem depois do caos no Desportivo Maputo. Mas antes recuemos a fita. Um grupo de adeptos invadiu as instalações do clube empunhando dísticos, como aliás, lhe têm sido peculiares, nos últimos anos. Mais do que exigirem o pagamento de salários em atraso aos jogadores e o pessoal de apoio, os manifestantes exigem mudanças. Como se não bastasse, no seu estilo característico, exigem a demissão da direcção do clube, encabeçada por Paulo Ratilal.

Vivem-se momentos de fel no emblema ˝alvi-negro˝. As águas poderiam até estar mais turvas, mas Ratilal trata de desanuviá-las e dissipar equívocos. E foi nessa perspectiva que ele convocou a imprensa para esclarecer algumas zonas de penumbra. No lugar de manifestação, esclarece que o enquadramento correcto seria “invasão”. Justifica!

“Julgo que as pessoas que invadiram as instalações do clube não devem perceber como é que funciona o associativismo e muito menos devem respeitar os estatutos do clube”, explica Paulo Ratilal. É que, segundo ele, independentemente das reivindicações que os mesmos tenham a fazer, num estado democrático qualquer inquietação não é feita à força, nem com a obstrução do património. Não só os rostos dos ˝invasores˝ são invisíveis, mas os motivos por detrás da confusão também são, até qui, desconhecidos.

Aliás, sobre esse aspecto, Paulo Ratilal recusa-se terminantemente a aceitar que a invasão tenha sido levada a cabo pelos sócios ou adeptos.

˝Não posso acreditar que haja sócios do Desportivo que sejam capazes de trancar a secretaria, impedindo, por isso, o normal funcionamento da instituição. Portanto, gostaria eu que, realmente, parte daquelas pessoas fossem sócios do clube˝, observa Ratilal.

Há, neste momento, um trabalho minucioso para identificação das pessoas que invadiram o clube. Ainda assim, Ratilal afirma categoricamente que os mesmos não passam de vândalos e arruaceiros. Exige-se disciplina. Por isso, a direcção do clube já remeteu o caso aos órgãos da administração da justiça.

˝Nós somos pessoas sérias. Fazer bagunça é fácil, mas organizar as coisas é difícil. Desde que assumi os destinos do clube tenho estado a organizar muita coisa que não estava no devido lugar ̋, disse.

Por estar a mexer em alguns sectores nevrálgicos, Ratilal afirma que tem sido alvo de perseguições por algumas pessoas mal-intencionadas do clube.

˝A minha postura está a incomodar muitas pessoas. Elas sentem-se incomodadas porque estamos a eliminar ˝esquemas˝ e custos exagerados que temos estado a cortar. Portanto, essas pessoas que se aproveitavam do clube estão desagradas por isso˝, explica Paulo Ratilal.

 

NUNCA DESVIEI DINHEIRO DO CLUBE

Recentemente algumas pessoas ligadas ao Desportivo vieram a terreiro acusar a direcção, mormente o seu presidente de ter desviado mais de três milhões de meticais destinados à equipa sénior masculina de basquetebol. Questionado sobre o assunto, Paulo Ratilal classificou as acusações de infundadas.

˝É um autêntico disparate”, afirma, explicando que não há nenhum acto do clube que ele faça sem ser com documentos do clube. Ou seja, “nenhuma transferência ou transação que eu autorizo sem ser nas contas do clube. Nenhum patrocinador dá dinheiro que não seja directamente para as contas do Desportivo”, observa.

Para Paulo Ratilal essas acusações visam criar uma certa instabilidade no seio do clube. O timoneiro dos “alvi-negros” foi perentório ao afirmar que há um grupo de pessoas devidamente identificado que está a instrumentalizar alguns adeptos, com o objectivo de colocarem em causa a sua gestão.

 

A CULTURA DA PRESSÃO

Nos últimos anos os adeptos do Desportivo Maputo têm primado pela pressão, como forma de manifestarem o seu descontentamento face algumas situações que têm acontecido no clube. Dentre várias alegações, o pano de fundo tem sido a má gestão, falta de pagamento de salários, aliado aos supostos desvios de fundos.

Em 2015, a direcção liderada por Michel Grispos demitiu-se em bloco, após sofrer uma enorme pressão dos adeptos. Na altura, os adeptos levantaram muitos problemas, dentre os quais o facto de o plantel principal ter ficado cinco meses sem salários.

As reivindicações subiram de tom quando a Empresa Águas da Região de Maputo decidiu cortar o fornecimento de água ao clube, situação que embaraçou gravemente as actividades diárias, sobretudo a limpeza. Grispos foi contestado também pelo projecto falhado do campo de Bobole. E no fim, Michel Grispos cedeu à pressão.

Michel Grispos dirigiu o Desportivo de 1999 a 2015. Durante os 16 anos os seus momentos marcantes foram a “dobradinha” conseguida em 2006, ou seja, a conquista do Moçambola e Taça de Moçambique em futebol. Nos anos 2007 e 2008 a equipa sénior feminina de basquetebol sagrou-se campeã africana.

Quem também não resistiu à pressão dos adeptos foi Inácio Bernardo, submetendo o pedido de demissão à Mesa da Assembleia-geral do clube. Muito se disse e se escreveu, mas a verdade é que, na altura, a direcção demissionária alegou que houve vários factores que estiveram por detrás dessa decisão, nomeadamente o facto de já não haver um bom ambiente de trabalho para a direcção.

A direcção encabeçada por Inácio Bernardo alegou também que a decisão visava salvaguardar a imagem do Grupo Desportivo Maputo e, acima de tudo, fazer com que os objectivos que o elenco havia traçado quando tomou posse não fossem beliscados. Esta é a terceira vez que os adeptos forçam a saída da direcção do clube.

Fonte:O País

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