Por: Editora Kapulana

Em 20 de Setembro de 2021 completam-se 20 anos do lançamento da primeira edição de Sangue Negro, de Noémia de Sousa, a “Mãe dos poetas moçambicanos”

20 de Setembro é uma data a ser destacada em nossos calendários! Foi nesse dia, em 1926, que nasceu Noémia de Sousa, escritora moçambicana, a Mãe dos Poetas Moçambicanos.
Em 20 de Setembro de 2001, foi publicada a primeira edição de um dos livros mais importantes da literatura moçambicana – Sangue negro – colectânea de 46 poemas, escritos entre 1948 e 1951, por Noémia de Sousa (1926-2002). Essa primeira edição, da AEMO (Associação dos Escritores Moçambicanos), foi organizada por renomados pesquisadores – Fátima Mendonça, Francisco Noa e Nelson Saúte – que contribuíram com textos importantes que fazem parte da obra. A capa, de António Sopa, é um ícone da arte africana.
10 anos depois, em 2011, a editora Marimbique, sob a direcção de Nelson Saúte, lançou a segunda edição do livro de Noémia de Sousa. Essa edição não só é uma homenagem à escritora, mas um marco na produção editorial de Moçambique.
Em 2016, em Novembro, mês da Consciência Negra, a Editora Kapulana publica no Brasil Sangue negro, cujos poemas já faziam parte do universo dos leitores brasileiros, mesmo não havendo ainda uma edição nacional até aquele momento. Os versos de Noémia de Sousa finalmente aportaram em território brasileiro. Um ano antes vieram pelas mãos do consagrado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa para a casa da Kapulana.
A edição brasileira traz magnífica capa de Amanda de Azevedo, ilustrações internas inesquecíveis de Mariana Fujisawa, que nos fazem retornar à leitura de cada poema, e cuidadosa coordenação editorial de Rosana M. Weg. Os importantes ensaios da primeira edição, de Fátima Mendonça, Francisco Noa e Nelson Saúte, foram mantidos.
Além disso, a Kapulana recebeu de muitos, generosamente, textos e artes em homenagem a Noémia de Sousa, que fazem parte da edição brasileira. Encontramos aí uma conversa de inestimável valor entre a arte de Noémia de Sousa e a de emocionados amigos, parentes, conhecidos, artistas plásticos, poetas, prosadores, estudiosos, activistas culturais; mais jovens, mais velhos; brasileiros, moçambicanos, angolanos, portugueses, goeses… A todos, a Kapulana não se cansa de agradecer:
Adelino Timóteo, Aldino Muianga, Ana Mafalda Leite, Calane da Silva, Carmen T. Secco, Clemente Bata, Domi Chirongo, Fátima Mendonça, Francisco Noa, José dos Remédios, José Luandino Vieira, José Luís Cabaço, Lucílio Manjate, Luís Carlos Patraquim, Marcelino Freire, Mariana Fujisawa, Mia Couto, Nazir Ahmed Can, Nelson Saúte, Rita Chaves, Roberto Chichorro, Sílvia Bragança, Suleiman Cassamo, Tânia Tomé, Ungulani Ba Ka Khosa e Virginia (Gina) Soares.

Os poemas de Noémia de Sousa impressionam por sua universalidade e pelo impacto que têm ainda hoje nas vidas de pessoas de várias nacionalidades. Seus versos atravessam mares, ares e terras, e encontram ressonância em todos os cantos do mundo. São lidos ou ouvidos por pequenos grupos, em reuniões familiares, em saraus; em revistas, em antologias e livros didáticos; nas redes sociais e em eventos maiores como nas feiras literárias.
Hoje, a voz de Noémia de Sousa ecoa dramaticamente por sua actualidade, por expressar o sofrimento e a luta contra o racismo, a intolerância e a opressão. Os versos de Noémia, ao mesmo tempo que emocionam por sua beleza, alertam o leitor e o ouvinte para que se mantenham sempre atentos e firmes na luta contra o opressor.
Um pouco da voz de Noémia:
NOSSA VOZ (06/08/1949)
Ao J. Craveirinha

Nossa voz ergueu-se consciente e bárbara
sobre o branco egoísmo dos homens
sobre a indiferença assassina de todos.
Nossa voz molhada das cacimbadas do sertão
nossa voz ardente como o sol das malangas
nossa voz atabaque chamando
nossa voz lança de Maguiguana
nossa voz, irmão,
nossa voz trespassou a atmosfera conformista da cidade
e revolucionou-a
arrastou-a como um ciclone de conhecimento.

E acordou remorsos de olhos amarelos de hiena
e fez escorrer suores frios de condenados
e acendeu luzes de esperança em almas sombrias de desesperados…

Nossa voz, irmão!
nossa voz atabaque chamando.

Nossa voz lua cheia em noite escura de desesperança
nossa voz farol em mar de tempestade
nossa voz limando grades, grades seculares
nossa voz, irmão! nossa voz milhares,
nossa voz milhões de vozes clamando!

Nossa voz gemendo, sacudindo sacas imundas,
nossa voz gorda de miséria,
nossa voz arrastando grilhetas
nossa voz nostálgica de ímpis
nossa voz África
nossa voz cansada da masturbação dos batuques de guerra
nossa voz negra gritando, gritando, gritando!
Nossa voz que descobriu até ao fundo,
lá onde coaxam as rãs,
a amargura imensa, inexprimível, enorme como o mundo,
da simples palavra ESCRAVIDÃO:

Nossa voz gritando sem cessar,
nossa voz apontando caminhos
nossa voz xipalapala
nossa voz atabaque chamando
nossa voz, irmão!
nossa voz milhões de vozes clamando, clamando, clamando!

Fonte:O País

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