Depois de terminantes recusas, o Governo assumiu, finalmente, esta quarta-feira, a partir do pódio da Assembleia da República, a existência de empresas de segurança privada que estão a operar lado-a-lado com as Forças de Defesa e Segurança (FDS), no combate aos ataques terroristas, na província de Cabo Delgado, região norte do país.

 

Segundo o Ministro do Interior, Amade Miquidade, o país não tem capacidade (meios) para sozinho combater os ataques terroristas no chamado teatro operacional norte, derivando daí o recurso ao que chamou de “consultores de segurança”, condimento trazido pelas multinacionais que têm os seus projectos naquela parcela do país, como forma de salvaguardar a continuidade dos mesmos.

 

Amade Miquidade disse que o recurso aos “consultores de segurança” não é apenas um caso exclusivo do nosso país, sendo que em outros contextos (países), até com mais pujança militar que o nosso, a realidade é a mesmíssima.

 

O Ministro do Interior deu estes esclarecimentos em resposta às perguntas formuladas pela bancada parlamentar da Renamo, que pretendia saber da razão da contratação de empresas de segurança privada e mercenários para combater os terroristas em Cabo Delgado.

 

“Excelências, o combate ao terrorismo faz-se com uma expertise que não temos. Países de todos os quadrantes do mundo e mais pujantes, que nós militarmente, sofrem este mal por muitos anos e das mais diversas formas. Ademais, os novos actores económicos que entram têm uma dinâmica securitária específica. A continuidade destes investimentos demanda uma segurança especializada em meios que não temos e, em qualquer parte do mundo onde operem, a componente de segurança é atribuída a grupos específicos, os consultores de segurança. Não somos excepção, nem conseguiremos com este problema que atravessamos. No nosso país temos vários exemplos. A nossa companhia de bandeira voa com aviões alugados e tripulação contratada não moçambicana”, disse Amade Miquidade.

 

Ainda na sua alocução, Amade Miquidade avançou que as FDS são o reflexo dos Acordos de Paz celebrados para pôr fim aos conflitos, mas que, em termos práticos, os seus desígnios nunca chegaram a ser alcançados, visto que a mesma sempre esteve ameaçada.

 

“A história do conflito, no país, terminou com acordo que deixou o país a mercê de qualquer ameaça externa. O país foi por largos anos defendido por espingardas de assalto. A bem da paz, a estrutura e a organização da defesa do nosso Estado foi desarticulada, desmantelada por uma paz que não se materializou. Mesmo assim, os perigos à paz dos moçambicanos não cessaram com os ataques armados e a ameaça ao retorno à guerra”, anotou o Governante.

 

Adiante, Miquidade, isto quando se debruçava sobre o ponto de situação e o perfil dos atacantes, disse que a situação é complexa e que existe uma dimensão criminosa e com dimensões “internacionais que sustenta, alimenta, direcciona e motiva os que semeiam terror”.

 

Anotou, igualmente, que não era de se pôr de lado “algum interesse geoestratégico pela importância económica que a província apresenta para o país, o hemisfério sul e xadrez mundial dos hidrocarbonetos”.

 

Ataques na zona centro: Renamo tem dever patriótico de “fornecer toda a informação relativa à Junta Militar”

 

No ponto sobre os ataques armados, que têm estado a ocorrer na região centro país, o Ministro do Interior construiu a sua narrativa em volta do partido Renamo. Esta formação política, segundo Miquidade, tinha, em certa medida, responsabilidades, precisamente, por possuir ligações com os indivíduos que têm perpetrado aqueles actos contra o Estado.

 

O Ministro do Interior defendeu que a Renamo, pela ligação umbilical que tem com os indivíduos que integram aquele movimento, tem o dever patriótico, e no supremo interesse da paz, de fornecer toda a informação relativa à Junta Militar, liderada por Mariano Nhongo. Concretamente, Miquidade quer que o maior partido da oposição forneça as bases, indique os homens, a localização e os esconderijos da Junta Militar.

 

Uma vez apresentados estes elementos, a realidade naquela região do país, tal como disse o dirigente, poderá conhecer mudanças substanciais, tais como a normalização das condições de vida da população.

 

“A Renamo faz um resumo descritivo na zona centro (…). Ora bem, considerando as armas, as munições, o uniforme, o habitat da Junta e a sua umbilical ligação com a Renamo tem esta o dever patriótico, e no interesse da paz, de fornecer toda a informação relativa à Junta, nomeadamente: bases, homens, localização e esconderijos. Realizados estes passos, a situação na zona centro poderá conhecer mudanças substanciais, como a normalização das condições vida, de trabalho, circulação de pessoas e bens e retoma plena das mais variadas actividades económicas e de rendimento, com o desaparecimento desta ameaça à vida”, avançou.

 

Os ataques armados, em Cabo Delgado, já provocaram mais de 1.500 mortos, estando, actualmente, o número de deslocados, situado em mais de 435 mil pessoas, que procuram refúgio nas províncias de Nampula, Zambézia, Niassa, Manica, Sofala e Inhambane. (Ilódio Bata)

Fonte: Carta de Moçambique

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