Na passada quinta-feira (30), o Presidente angolano, João Lourenço, desembarcava em Londres, com toda a família para assistir à cerimónia de graduação da filha mais nova. Acomodado no luxuoso Hotel Grosvenor House, em Mayfair, o estadista angolano pediu apenas que lhe levassem para o quarto 802 (suíte presidencial Kensington Penthouse) uma chávena de chá e uma sanduíche. Não queria encher a barriga, pois ao cair do dia sairia para jantar fora com a família.

 

Mas no meio da tarde, Lourenço viu-se impedido de deixar o Grosvenor pelo acesso principal. Um dos seus seguranças alertou-o de que nas imediações havia uma manifestação de jovens do seu próprio partido, o MPLA, e outros activistas políticos angolanos residentes na Inglaterra, empunhando cartazes e apelando para que as eleições de finais de Agosto deste ano, em Angola, sejam livres e justas.

 

Os promotores da manifestação de Londres haviam comunicado à Polícia (a Scotland Yard) que não só iriam protestar como também planeavam levar consigo ovos e um produto da terra (fubá), para dar as boas-vindas à caravana presidencial. Foi-lhes garantido que não seriam detidos nem molestados, mas que, em caso de excessos, seriam retirados do perímetro do hotel. A concentração foi até às 5 da manhã do dia seguinte.

 

A “manif” foi protagonizada por militantes do MPLA e correspondeu a mais um sintoma da profunda divisão interna que vem abalando, nos últimos dias, as fundações do partido no poder em Angola, a poucas semanas das eleições mais disputadas de sempre.

 

A divisão interna no MPLA é indiscutível. O Presidente João Lourenço tem noção disso. Sua manutenção e a do MPLA no poder está por um fio. “Carta” sabe que sondagens internas do próprio MPLA sobre as intenções de voto dos angolanos em Agosto dão uma margem favorável à UNITA. 

 

O MPLA está claramente com as calças nas mãos e, para se safar, está a pedir apoio aos partidos libertadores que continuam no poder na África Austral.

 

Elementos da Frelimo (de Moçambique), do ANC (África do Sul) e da Swapo (da Namíbia) estão de malas aviadas para Luanda com o objectivo de prestar assessoria ao regime local sobre como manter o MPLA no poder.

 

O primeiro sinal visível dessa cooperação deu-se em Maputo. Na semana passada, dirigentes da Frelimo, do ANC e do MPLA encontraram-se na capital moçambicana no seguimento da celebração dos 60 anos da Frelimo. O SG da Frelimo, Roque Samuel, disse que o encontro serviu para partilha de experiências sobre o combate à corrupção. 

 

Snuki Zikalala, Presidente da Liga dos Veteranos do ANC, disse que a Frelimo era uma constante fonte de inspiração e que, se não fosse ela, a luta contra o “apartheid” teria sido mais complicada.

 

O representante do MPLA, Manuel Augusto, Secretário do Bureau político, disse que o seu partido deu um exemplo e partiu para um combate cerrado contra a corrupção, um combate que afecta seus militantes, seus dirigentes, mas isso foi “uma forma de assegurar um rumo certo para o nosso país, de dar esperança aos jovens”.

 

A forma como esse “combate” foi dirigido por João Lourenço criou fissuras internas. “Ele não atingiu apenas a família de José Eduardo dos Santos, mas toda uma vasta elite militar e empresarial que dependia dos petro-dólares para se reproduzir”, disse um analista angolano à “Carta”. A fonte acrescentou que Lourenço manteve os mesmos padrões de corrupção e redistribuição de riqueza e favores, mas agora para um grupo pequeno de elementos leais.

 

“O MPLA está partido”. E para conciliar as facções internas, Luanda convidou Joaquim Chissano, antigo estadista moçambicano, Prémio Mo Ibrahim de 2007. Chissano também está de malas aviadas para Angola, disseram várias fontes de “Carta”. 

 

O trabalho de Chissano em Luanda vai ser, parece, hercúleo. Ele vai tentar uma conciliação no seio do MPLA de modo que dentro do partido não haja uma grande dispersão de votos a favor da UNITA. A poucas semanas do pleito, as possibilidades de Joaquim Chissano parecem limitadas, de acordo com a analista que temos vindo a citar.

 

Quanto às tarefas da Frelimo, do ANC e da SWAPO em Angola, “Carta” desconhece seus “termos de referência”, mas o partido no poder em Moçambique, desde 1975, tem um domínio profundo da gestão e controlo de órgãos de administração de eleições, sendo experiente em mecanismo de inclinação do campo da disputa eleitoral a seu favor. É provável que também sigam, de Maputo para Luanda, especialistas moçambicanos em “gestão eleitoral”. (Marcelo Mosse, com José Gama, jornalista angolano)

Fonte: Carta de Moçambique

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