A comunidade de investimentos sul-africana enfrenta um dilema em relação à oferta de direitos subscritos para Tongaat Hulett para que faça um acordo com uma das famílias mais notórias do Zimbabwe ou enfrente o desmembramento do principal produtor de açúcar da África Austral. 

 

A Tongaat Hulett passou por tempos difíceis nos últimos anos após a descoberta de irregularidades contabilísticas em 2019, o que resultou na revisão dos seus resultados e ser multada pelo JSE.

 

Isto culminou com a implosão no preço das acções da empresa que, em 2018, cada acção estava sendo negociada em torno de 130 rands para cerca de 6 rands em que está sendo negociada hoje. Apesar de uma extensa investigação da PwC e de uma nova mexida na administração, a empresa ainda continua lutando.

 

A implosão do preço das acções teve como efeito tornar o balanço da empresa quase insustentável, e sua enorme dívida de aproximadamente 6,6 biliões de rands está agora em risco, causando pânico entre os seus banqueiros.

 

Nesse pântano saltou à vista uma empresa registada nas Maurícias, a Magister, detida e controlada por membros da família Rudland do Zimbabwe, que supostamente têm sido apoiante da Zanu-PF e da sua liderança.

 

A família é também proprietária da empresa Gold Leaf Tobacco, que, segundo algumas estimativas, é a maior empresa de cigarros da África do Sul, a avaliar pelo número de cigarros vendidos.  A empresa ganhou destaque quando o co-proprietário Simon Rudland sobreviveu a uma tentativa de assassinato ao estilo de gangues em Agosto de 2019.

 

Não existe uma ligação directa entre a Magister e a Gold Leaf, que é representada por Hamish, irmão de Simon Rudland, cujo principal negócio é a indústria dos transportes. No entanto, vários relatórios alertaram sobre a recente queda do Zimbabwe num “sistema oligárquico de estilo russo”.

 

“Está a tornar-se um centro regional de lavagem de riqueza ilícita que está a alimentar conflitos violentos”, refere o relatório. 

 

O documento inclui também uma análise detalhada das supostas actividades da família Rudland, entre as quais, o contrabando de ouro, lavagem de dinheiro e mineração em áreas de conservação.

 

A Magister anunciou em 17 de Novembro de 2021 que subscreveria os primeiros 2 biliões de rands de uma oferta de direitos de 4 biliões.  Se for bem-sucedida, a oferta de direitos ajudará bastante a resolver o problema da dívida da Tongaat e, provavelmente, manterá a integridade da empresa.

 

O drama da oferta de direitos é ilustrado pelo facto de a Tongaat ter, actualmente, um valor patrimonial de 770 milhões de rands.  A oferta de direitos tem, portanto, o condão de transformar completamente a estrutura de propriedade da empresa.

 

Em termos do acordo, a participação da Magister é limitada a um máximo de 60%. Sendo assim, a Magister receberá um assento no conselho para cada 20% de acções da empresa. Também receberá uma taxa fixa de subscrição de 1,5%, ou seja, 30 milhões de rands.

 

A própria Tongaat tem poucas opções além de vender os seus activos aos poucos, um processo que já havia começado, principalmente, vendendo as suas operações de amido muito lucrativas e vários negócios, incluindo o comércio namibiano e negócios de marketing e operações na Suazilândia.

 

Num comunicado de negociação em Setembro, a empresa anunciou que os principais lucros dos seis meses até 20 de Setembro cairiam drasticamente. E assim aconteceu quando a empresa anunciou os seus resultados provisórios a 9 de Dezembro, com lucro operacional reduzido de 1,67 bilião de ranes para 1,2 bilião. O lucro após impostos caiu para 23 milhões de rands contra os anteriores 385 milhões.

 

Para os investidores, a proposta é uma faca de dois gumes; fazer um acordo com uma família “notória” ou enfrentar o desmembramento da empresa, colocando em risco o futuro dos seus 29.000 funcionários no pico da safra na África do Sul, Zimbabwe, Moçambique e Botswana.

 

Mas a Tongaat apostou na primeira opção. Questionada no contexto do relatório da Comissão Zondo, se um acordo com a Magister é aconselhável, a empresa disse que a Magister “seria um investidor adequado”.

 

A chefe de comunicações da Tongaat, Virginia Horsley, disse que, como parte da avaliação da Magister, a PwC realizou, a pedido da Tongaat, um exercício independente de due diligence de conformidade que incluiu a compreensão da Magister, seus activos e investimentos e seus associados, bem como uma revisão de uma combinação de informações publicamente disponíveis, informações corporativas privadas seleccionadas, referências e respostas da Magister a perguntas específicas.

 

“A Magister está investida em vários negócios respeitáveis ​​e substanciais e a Tongaat acredita que seria um investidor adequado. A Magister forneceu à Tongaat uma garantia bancária sul-africana para apoiar seus compromissos de subscrição. Como parte deste processo, o Standard Bank realizou as verificações anti-lavagem de dinheiro, com as quais Tongaat se confortou. Acreditamos que, por meio de uma oferta de direitos de até 4 biliões de rands, a Tongaat desbloqueará o crescimento de longo prazo, protegerá o valor intrínseco dos accionistas e criará um legado para muitas pessoas dependentes dos negócios da Tongaat em toda a SADC”, referiu.

 

Por sua vez, a família Rudland está convencida de que o rótulo “notório” é inapropriado.  Em resposta às perguntas do Business Maverick, a empresa avançou: “os membros da família Rudland têm muitos interesses comerciais em negócios respeitáveis ​​e substanciais, incluindo empresas listadas. Não há base para sugerir que eles são inadequados para investir na Tongaat.  A família tem grande consideração pelas boas práticas de governação corporativa.  A Magister tem confiança na gestão da Tongaat e não tem intenção de se envolver nas operações diárias desta companhia.”

 

Os membros da família já possuem 9,98% da Tongaat por meio de uma empresa registada nos Emirados Árabes Unidos, a Braemar. Mas nem Braemar nem Magister votarão nas resoluções por razões de governação corporativa, mesmo que não sejam tecnicamente “partes relacionadas”, conforme definido pela Lei das Sociedades ou pelas regras do JSE.

 

Os dois maiores accionistas da Tongaat são a Public Investment Corporation (PIC), que não respondeu às perguntas da mídia, e o grupo financeiro PSG, que detêm 14% e 15% da empresa, respectivamente.

 

A chefe-executiva da PSG Asset Management, Anet Ahern, disse: “fazer malabarismos com os interesses de todas as partes interessadas é excepcionalmente complicado neste caso, pois a Tongaat também tem um grande impacto na sociedade em que opera.  Escolhas difíceis precisam de ser feitas e elas sempre serão controversas.”

 

Com efeito, o banqueiro do negócio, o Standard Bank, procurara colocar a responsabilidade pela decisão de prosseguir com o conselho e os accionistas da Tongaat.

 

“O Standard Bank cumpre a legislação local e internacional contra a lavagem de dinheiro e leva essa responsabilidade a sério. O Standard Bank segue os seus processos internos de avaliação de risco do cliente de forma diligente e consistente, e não colocará a sua reputação em risco ao fazer negócios de forma anti-ética, ilegal ou não profissional. Qualquer decisão de prosseguir com a oferta de direitos e quaisquer transacções relacionadas serão de responsabilidade única e independente do conselho da Tongaat Hulett e de seus accionistas”, avançou.  (BM/DM)

Fonte: Carta de Moçambique

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