Nove países da África Austral estão, desde sábado último, isolados do mundo, devido à descoberta, na África do Sul, da nova variante do novo Coronavírus, denominada “ómicron”. Moçambique, África do Sul, Lesotho, Botswana, Zimbabwe, Namíbia, eSwatini, Malawi e Zâmbia estão na lista negra de alguns países europeus, asiáticos, da Oceânia e africanos, incluindo Angola, que integra também a região Austral do continente.

 

Em causa está o facto de uma equipa de cientistas sul-africanos ter identificado uma nova variante do SARS-CoV-2, inicialmente identificada como B.1.1.529, e que apresenta numerosas mutações e é altamente transmissível. As nove nações da zona austral de África são consideradas de “alto risco”, devido ao maior fluxo migratório entre eles.

 

União Europeia, Austrália, Macau, Japão, Coreia do Sul, Indonésia, Turquia, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Estados Unidos da América, Reino Unido, Marrocos e Angola são alguns dos países que anunciaram a proibição de entrada de pessoas que tenham estado nestes nove países, assim como suspenderam as ligações aéreas com os países da região sul do continente africano. No caso de Angola, a medida irá vigorar até 2022.

 

A medida está a ser severamente contestada. A Organização Mundial da Saúde (OMS), por exemplo, defende a necessidade de as fronteiras ainda se mantiverem abertas e diz estar “ao lado dos países africanos” e pede para que os países adoptem “uma abordagem científica”, baseada na “avaliação dos riscos”.

 

Os escritores Mia Couto e José Eduardo Agualusa também criticam a medida tomada pela União Europeia e outros países. Entendem tratar-se de acções contra a ciência e contra a humanidade. Citados pela STV, os escritores defendem que o continente europeu, que se proclama o berço da ciência, “esqueceu-se dos mais básicos princípios científicos”, pelo que “sem se ter prova da origem geográfica desta variante e sem nenhuma prova da sua verdadeira gravidade, os governos europeus impuseram restrições imediatas na circulação de pessoas”.

 

“Cientistas sul-africanos foram capazes de detectar e sequenciar uma nova variante do SARS- CoV-2. No mesmo instante, divulgaram, de forma transparente, a sua descoberta. Ao invés de um aplauso, o país foi castigado. Junto com a África do Sul, os países vizinhos foram igualmente penalizados. Em vez de se oferecer para trabalhar juntos com os africanos, os governos europeus viraram as costas e fecharam-se sobre os seus próprios assuntos”, dizem os escritores, citados pela STV.

 

Aliás, os efeitos das medidas já se fazem sentir. Uma cidadã moçambicana gravou um vídeo no Aeroporto de Istanbul (Turquia), afirmando estar a ser impedida de entrar naquele país, para onde viajou para com o objectivo de fazer compras. No vídeo amador, ela diz ainda não ter sequer condições mínimas de higiene e não sabe qual será o seu destino.

 

Refira-se que a África Austral está a ser isolada, num momento em que regista uma redução drástica no número de novas infecções pelo novo coronavírus, assim como óbitos por Covid-19. Em sentido contrário, alguns países europeus enfrentam a quarta vaga, havendo outros que já decretaram um novo lockdown, como é o caso da Áustria. África do Sul e Botswana são, até ao momento, os únicos países da região que detectaram casos da nova variante. (Carta)

Fonte: Carta de Moçambique

Leave a Reply

Your email address will not be published.