A questão da importação de combustíveis russos para Moçambique, uma possibilidade remota do ponto de vista prático, da “real politik”, ganhou ontem um episódio no campo da retórica.

 

Dois antigos relevantes governantes moçambicanos, Luísa Dioga (PCA do ABSA), uma quase assumida candidata à candidata presidencial da Frelimo, e Tomaz Salomão (que já foi Secretário Executivo da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral e hoje pontifica como PCA do Standard Bank Moçambique), defenderam a “soberania” do nosso país na sequência da recomendação americana segundo a qual as nações africanas não deviam comprar combustível da Rússia, devido às sanções impostas contra Moscovo.

 

Ontem, à margem do evento em que o Presidente da República, Filipe Nyusi, anunciou um pacote de medidas de aceleração económica, Tomaz Salomão e Luísa Diogo defenderam que o país é livre de seguir os seus interesses.

 

Tomaz Salomão foi mais directo no seu comentário: “Moçambique recebeu uma oferta que foi feita por um país. No mundo de hoje, em relações internacionais, aquilo que conta são os interesses de cada país em primeiro lugar. Os russos têm os seus interesses de vender o combustível, Moçambique tem o seu interesse que é comprar combustível a um preço acessível”, afirmou Salomão.

 

Membro da Comissão Política da Frelimo, Salomão disse que o Governo deverá, perante várias opções (além da Rússia), estudar a opção mais conveniente, que é adquirir combustível barato.

 

“Moçambique vai tomar a decisão e a opção que achar mais conveniente. A opção conveniente é que precisamos adquirir combustível a preço acessível”, afirmou Salomão.

 

Sobre a imposição russa segundo a qual a moeda de troca teria de ser o rublo, Salomão foi peremptório: “Não precisamos de ter reservas em rublos. Precisamos de ter recursos com os quais possamos fazer a conversão e fazer as compras, mas o país está a estudar as vantagens que decorrem da oferta que foi feita pela Rússia, seguramente que outras ofertas estarão por cima da mesa e, por fim a IMOPETRO, a entidade que importa combustível vai tomar a decisão sobre onde vamos adquirir o combustível”, concluiu.

 

No mesmo diapasão pronunciou-se a antiga Primeira-ministra, Luísa Diogo, com um comentário de pendor diplomático: “A posição de Moçambique que todos nós devemos fazer parte é a posição que está definida na Constituição, que foi defendida também no momento da votação pelo Governo moçambicano, que é a abstenção em relação a esta situação, então baseando nessa posição política tomada, o Governo deve actuar em conformidade com esse princípio e ver como vai fazer a gestão da situação”, afirmou Diogo.

 

A proibição dos EUA foi tomada após o Governo moçambicano ter informado que estava a ponderar adquirir combustível de Moscovo, depois de uma oferta do embaixador daquele país em Moçambique.

 

A embaixadora dos EUA nas Nações Unidas, Linda Thomas-Greenfield, falando na capital de Uganda, Kampala, após uma reunião com o Presidente Yoweri Museveni, disse que os países podiam comprar produtos agrícolas e fertilizantes russos, menos combustíveis, onde há sanções. Nesse contexto, avisou os países a não quebrarem essas sanções, sob pena de consequências. (Evaristo Chilingue)

Fonte: Carta de Moçambique

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