Cantora lança álbum com onze gravações extraídas da trilha sonora de programa exibido pelo Canal Brasil. Resenha de álbum
Título: Um copo de veneno
Artista: Cida Moreira
Edição: Kuarup
Cotação: * * * *
♪ Poucas cantoras seriam capazes de irmanar e ressignificar, ao longo de 11 faixas que totalizam menos de meia hora, músicas de universos tão díspares como Cida Moreira faz (bem) no álbum Um copo de veneno.
À vontade na atmosfera de cabaré em que ambientou parte expressiva da discografia, a cantora paulistana expõe no disco – para citar somente um exemplo da sagacidade da intérprete – o link que pode haver entre o cancioneiro do compositor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) e a obra dos parceiros Lenine e Lula Queiroga.
A exposição desse improvável elo salta aos ouvidos na abordagem de Rosebud (O verbo e a verba) (Lenine e Lula Queiroga, 2001), destaque desse álbum que perpetua onze gravações extraídas da trilha sonora do programa Um copo de veneno, exibido de janeiro a março pelo Canal Brasil em dez episódios idealizados e dirigidos por Murilo Alvesso.
Remasterizadas com precisão pelo DJ Zé Pedro (mentor do disco), as gravações geram álbum à altura da obra fonográfica de Cida Moreira. Eram doze músicas na concepção original do disco, mas ficaram onze na seleção final.
Das onze músicas, dez são inéditas na voz da dama do cabaré. A exceção é Singapura (1981), composição de Eduardo Dussek que versa sobre cantora decadente sem os agudos e o sucesso de outrora. No auge da potência vocal, Cida já havia gravado a música no segundo álbum, Abolerado blues (1983). No álbum Um copo de veneno, Singapura ressurge no piano Rhodes – único instrumento que, tocado pela própria artista, conduz Cida nessa viagem por repertórios e mundos musicais alheios.
Cida Moreira canta versão em português de música do grupo porto-riquenho de rap Calle 13
Murilo Alvesso / Divulgação
Por serem feitas por senhora cantora de tons teatrais, as gravações resistem bem no disco, fora do trilho dramatúrgico dos dez episódios que compuseram o programa de TV.
Há algumas músicas que ressurgem em tom próximo dos registros originais e, por isso, impactam menos. É o caso sobretudo de Efêmera (Tulipa Ruiz e Gustavo Ruiz, 2010), canção que há uma década abriu alas para a voz da cantora e compositora paulistana Tulipa Ruiz. Retrato da ansiedade humana, Efêmera soa – fora do roteiro do programa – como veículo para a exposição dos atuais agudos de Cida.
Em contrapartida, há composições que adquirem novo sentido no canto da saloon singer brasileira. É o caso sobretudo de Avisa, música de autoria de Ricardo Cruz, o Tato, vocalista e compositor do grupo Falamansa. Lançada há 20 anos no primeiro álbum do grupo, Deixa entrar (2000), em gravação naturalmente feita em clima de forró, Avisa ganha densidade no registro de Cida, em interpretação que evidencia letra que versa sobre sofrimento, sinalizando desespero.
Há também ressignificação na interpretação de trecho do funk Eu sou a diva que você quer copiar (André Vieira, Leandro Pardal e Wallace Viana, 2014). O batidão do sucesso de Valesca Popozuda é transposto para o piano e aclimatado no cabaré da dama, quebrando pré-conceitos.
A teatralidade de Cida Moreira capacita a cantora a interpretar a entrega, a loucura e o drama de amor que pautam os versos de Você me vira a cabeça (Me tira do sério) (Chico Roque e Paulo Sérgio Valle, 2001), balada propagada na voz de Alcione.
A seleção de repertório do disco Um copo de veneno é inteligente. É impressionante como Prezadíssimos ouvintes (Itamar Assumpção e Domingos Pellegrini, 1983) – música do repertório de Itamar Assumpção (1949 – 2003), lançada no álbum Sampa Midnight – Isso não ficar assim (1983) – se ambienta com naturalidade no cabaré, com direito a cacos postos na letra pela cantora, que cita até o Canal Brasil.
Cida Moreira encarna novamente a dama do cabaré no álbum ‘Um copo de veneno’
Murilo Alvesso / Divulgação
Essa mesma naturalidade é percebida em Private dancer (Mark Knopfler, 1984), composição que batizou o álbum que, nos anos 1980, deu novo fôlego à carreira da cantora norte-americana Tina Turner. E é interessante notar o diálogo sutil entre Prezadíssimos ouvintes e Private dancer, já que ambas as letras versam sobre a sobrevivência do artista, seja um cantor ou uma dançarina.
Música mais surpreendente do disco, Floradas do amor (2009) é parceria de Douglas Germano com Kiko Dinucci que versa sobre fetiches sexuais em clima noturno. Cida Moreira sorve com prazer os venenos desta música lançada há 11 anos pelo Duo Moviola no álbum O retrato do artista quando pede (2009).
Marcha macia (Siba, 2015) segue na cadência politizada do cabaré em sintonia com o arremate do álbum Um copo de veneno. É quando Cida Moreira dispara a certeira A bala – versão em português (presumivelmente inédita) de La bala (Rene Perez, Eduardo Cabra e Rafael Ignacio Arcaute, 2010), música do grupo porto-riquenho de rap Calle 13.
A bala alveja o ouvinte com explosivo discurso político em que a dama do cabaré derrama toda a atitude e a teatralidade que a tornaram uma das cantoras mais relevantes do Brasil nos últimos 40 anos.



Globo

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