É já no próximo domingo, 22 de Novembro, que o país assinala a passagem do vigésimo aniversário, após o assassinato do jornalista Carlos Cardoso, descrito como o ícone do jornalismo investigativo, em Moçambique. E para recordar esta figura “emblemática”, “Carta” conversou com Fernando Lima, colega do finado na Agência de Informação de Moçambique (AIM) e um dos integrantes do “clube dos 13” (incluindo Carlos Cardoso), que fundaram a primeira empresa privada de comunicação social do país, a Mediacoop, SA, uma cooperativa de jornalistas, criada em 1992.

 

Lima, que era Chefe da Redacção, durante o reinado de Carlos Cardoso na AIM, descreve o seu antigo colega como “um indivíduo muito inteligente e muito culto”, porém, “ingénuo politicamente”. No lote das virtudes de Carlos Cardoso, avança, está a beleza da sua escrita, a qualidade das suas fontes de informação e o respeito por elas, assim como a sua capacidade fantástica de trabalho. Já no que toca à “ingenuidade”, o actual PCA da Mediacoop, SA aponta o facto de Cardoso ter acreditado cegamente que, com a introdução da Lei de Imprensa, os órgãos públicos de comunicação social se tinham tornado independentes, ao ponto de ter criado um programa radiofónico para passar na Rádio Moçambique e que não durou seis meses.

 

Acompanhe, nos próximos parágrafos, o que de mais importante disse Fernando Lima, em torno de Carlos Cardoso.

 

Trabalhou com Carlos Cardoso, na AIM, e na Mediacoop. Pode partilhar connosco o que ainda guarda deste homem?

 

“Para começar, penso que há duas pessoas que me fazem muita falta no meu dia-a-dia de trabalho: Carlos Cardoso e Kok Nam. Carlos Cardoso pela profundidade dos debates que tínhamos e Kok Nam pelo lado afectivo e pela experiência de vida que tinha, pois, era um elemento muito importante para confiar e para partilhar. Então, isso mostra a relação que eu tinha com essas duas pessoas e o sentimento de perda que tenho pela morte de Cardoso, e não foi pelo facto de ele ter saído do mediaFax para o Metical, continuamos sempre a ter uma boa relação”.

 

“Conheci Cardoso desde a independência e ambos, antes de 1980, trabalhávamos em órgãos de informação diferentes [Fernando Lima no jornal Notícias e Carlos Cardoso na Revista Tempo], mas frequentávamos o mesmo círculo de amigos. Eu cheguei na AIM, em 1976 [ido do Notícias, onde trabalhou apenas seis meses (de Março a Setembro de 1976)], e Carlos Cardoso chegou em 1980, depois das habituais purgas políticas nos órgãos de comunicação. Cardoso, tal como eu, foi uma das pessoas afectadas por essas purgas políticas no sector da informação”.

 

“Carlos Cardoso era um indivíduo particularmente brilhante. Ou seja, era muito inteligente e muito culto. Tinha as duas facetas, pois, a pessoa pode ser inteligente e não ser culta. E isto fazia dele um excelente profissional. Para além disso, ele tinha uma boa escrita. Aliás, ele tinha muitos talentos e é, por isso, que digo que ele era brilhante, porque todas as coisas que ele fazia era muito bom (era bom no desporto, a tocar viola, a dançar, etc.). Mas, como se costuma dizer «não há bela sem senão». Do meu ponto de vista, ele era ingénuo politicamente. Ou seja, quando uma pessoa está nas lutas políticas tem de ter o sentido de oportunidade e tem de ter o sentido da táctica. A última coisa que Cardoso tinha era esse sentido de oportunidade e o sentido táctico. Por isso, uma pessoa que foi expulsa da África do Sul por ter içado a bandeira da Frelimo no campus da Universidade Witwatersrand e, durante os debates acalorados no sector da informação, encabeçado pelo Senhor Jorge Rebelo, Carlos Cardoso foi acusado de ser simpatizante do Apartheid, o que é uma blasfémia. Mas, isto significa que, quando a política é autoritária dá para fazer esse tipo de ataques. Mas, fazendo uma análise retrospectiva, eu diria que Cardoso se punha a jeito. Ou seja, uma pessoa que sempre dava o peito às balas, permite ser abatido facilmente”.

 

“Por exemplo, uma das grandes ingenuidades de Cardoso e que foi talvez um dos seus grandes cismas e depressão, ele acreditava que ser Director da AIM lhe ocupava muito tempo e ele queria ser um jornalista a tempo inteiro. Não queria assinar papeis, não queria ir a reuniões. Só queria ser jornalista. E eu disse-lhe «cuidado!», no dia em que tu deixares de ser Director perdes o poder que tu tens, portanto, não vais poder escrever o que escreves por seres Director da AIM. Mesmo que não concordem contigo, têm de torcer o nariz, mas engolir porque foram eles que te nomearam. Dito e feito, ele tanto insistiu para deixar de ser Director da AIM e fizeram-lhe a vontade e, no dia em que ele passou a ser um jornalista ordinário, tudo o que ele escrevia de mais arrojado era cortado e não saía porque o sistema de informação que estava montado significava que a AIM não existia numa nuvem: os textos da AIM iam à Rádio, ao Notícias e eventualmente à Revista Tempo. Esta foi uma grande decepção para ele e pediu demissão. Saiu no meio de uma grande depressão e posso dizer que abandonou o jornalismo e começou a fazer uma pintura muito esquisita, em que ele misturava tintas e punha no forno. Mas, depois foi ficar quase um ano na Noruega”.

 

“O outro cisma, para mostrar que ele era ingénuo, ele achava que a Rádio Moçambique (RM) era um órgão de informação independente, tal como vem descrito na Lei de Imprensa. Mentira! Nunca exerceram e até hoje não exercem. Mas Cardoso achava que sim, por isso, foi alugar um espaço na RM, onde fazia um programa que não durou meia dúzia de meses. Acabou! Acabou porque o programa dele era politizado, diferentemente dos outros, que eram de entretenimento. A terceira questão, que eu acho que foi um grande pecado, Cardoso acreditava que as instituições funcionavam com independência e integridade, então, houve um movimento internacional para importar uma impressora para toda a imprensa independente imprimir os seus jornais. Cardoso, que era uma personalidade incontornável, defendeu que os defendiam a importação de uma impressora eram lunáticos e que no país já havia uma impressora (da Cegraf) e que o importante era que a mesma fosse reparada. Como sabemos, essa tipografia sempre teve uma postura hostil em relação à imprensa independente, tal como a Gráfica do Jornal Notícias de há 30 anos. Então, o depoimento dele reforçou a posição do Governo.”

 

Falas do lado ingénuo de Cardoso, mas gostava de conhecer também esse lado brilhante dele…

 

“Nós podíamos estar todos deprimidos, a dizer que «isto acabou, que não vale a pena lutar, é só seguir o que o regime quer» e o Cardoso tinha essa capacidade de tirar coelhos da cartola, de uma forma fantástica. Ou seja, se chegasse nesta sala [onde decorreu a entrevista], todos estávamos deprimidos, sem vontade de fazer nada. Cardoso chegava aqui, começa a pôr as coisas de perna para o ar e aquilo que começou numa reunião muito deprimente, acabou num encontro fantástico, em que ele conseguiu ver a luz ao sítio onde nos encontramos. Então, só uma pessoa brilhante é que conseguia virar as coisas e o Cardoso podia ir numa reunião de altos dirigentes do país, incluindo Presidentes, e a eloquência dele de falar era capaz de virar a reunião e pôr todas as pessoas a bater palmas para ele. Por exemplo, houve umas reuniões na Escola Secundária Josina Machel, em que Cardoso fez um ataque contra a corrupção e que levou Armando Guebuza a fazer um contra-ataque tenebroso. Aliás, nós achávamos que depois daquela intervenção de Guebuza, Cardoso só podia sair dentro de um carro prisional para um campo de reeducação. Cardoso respondeu ao Guebuza e toda a sala (de militantes da Frelimo) bateu palmas para o Cardoso. Portanto, ele era brilhante, não só pela qualidade dos seus argumentos, mas também pela eloquência do seu discurso que conseguia virar as situações. Mas, também tinha uma capacidade de trabalho fantástica. Ele conseguia chegar de manhã no mediaFax e sair a meia-noite e, no meio disto, ia para conferências de imprensa, almoços, jantares, para tudo…

 

Fernando Lima e Carlos Cardoso integraram o grupo de jornalistas que decidiram criar a primeira empresa privada de comunicação social, em Moçambique. Pode dizer-nos qual foi o papel de Carlos Cardoso neste processo?

 

“O papel inicial foi Zero. Ou seja, Cardoso estava exilado na Noruega. Então, o núcleo duro daquilo que veio a dar na Mediacoop, estabeleceu contactos com Cardoso para ele se juntar à Mediacoop e isso foi um processo natural. Ele foi convidado a juntar-se à Mediacoop e ele aderiu sem nenhuma reserva. Agora, Cardoso tinha essa grande frustração de que estávamos sempre a planear um jornal, mas nunca saía. Então, nós convidamos a ele a editar o mediaFax e ele abraçou esse projecto e eu acho que ele revolucionou a comunicação social moçambicana com esse projecto, do ponto de vista editorial. Primeiro, mostrou que notícias sobre Moçambique feitas por moçambicanos tinham aceitação no mercado local e exterior e, portanto, deu uma grande credibilidade à Mediacoop e ao jornalismo moçambicano”.

 

Legado…

 

“Uma das coisas, que era base do seu jornalismo, e que eu me beneficiei, é a qualidade das fontes que tinha e o respeito pelas fontes que ele tinha. Até hoje, não se sabe quais foram os últimos sítios, em que esteve e com que pessoas ele esteve, porque nem na família falava essas coisas e mesmo o motorista não sabia com quem ia falar, pois, ele pedia o motorista para lhe deixar num determinado sítio e depois caminhava até ao local do encontro. Então, ele era muito respeitoso com as suas fontes e, nesse caso, estou muito agradecido ao Cardoso, porque acho que me beneficio e muito desse legado dele, pois, sinto que há muitas pessoas que confiam em mim por ele ter sido meu colega e porque acho que respeito, minimamente, as minhas fontes”.

 

Onde estava e de que jeito recebeu a informação sobre o assassinato de Carlos Cardoso?

 

“Eu estava a estudar, em Portugal, e recebi uma chamada do Senhor António Almeida Matos, que era um grande amigo de Cardoso e que também é meu bom amigo. Ele não me disse que Cardoso morreu, mas eu acho que ele estava a preparar-me para o que vinha. Disse-me que houve um atentado contra Carlos Cardoso e as notícias são muito más. Nem trocamos mais telefonemas, porque minutos depois a notícia espalhou-se. Fiz parte de uma Comissão de Inquérito do Comité para a Protecção dos Jornalistas (CPJ) e estive muito envolvido no follow-up da morte de Cardoso e depois fomos alvos de oferta de galinhas da Senhora Marcelina Chissano. Portanto, seguimos com muito activismo e mágoa a morte de Cardoso, independentemente de ele ter saído da Mediacoop. Aliás, a nossa sala de Redacção [dos Jornais SAVANA e mediaFax] chama-se «Sala Carlos Cardoso». Foi uma homenagem que nós prestamos por acharmos que ele é uma pessoa muito importante no jornalismo moçambicano e por ser uma pessoa que foi e que continua incómoda”.

 

Vinte anos após a sua morte, sente haver continuidade do jornalismo por ele feito ou terá sido uma excepção?

 

“Eu penso que a elegância da escrita dele é única. Não vejo muita gente com a qualidade com que ele escrevia. Não me refiro ao género jornalístico dele, pois, tenho muitas reservas. Mas, nos últimos anos, há jornalistas a aparecerem com grande coragem e que escrevem coisas também importantes, com investigação envolvida. O que noto é que, hoje, o jornalismo de investigação é desengajado politicamente. Ou seja, o Cardoso, mesmo no tempo do monopartidarismo, ele era um indivíduo engajado politicamente. Era leal (e não a favor) à liderança política deste país”.  

 

Na sua óptica, houve justiça na sua morte?

 

“Acho que houve uma justiça parcial. Até hoje, embora desconfiamos, não sabemos quem foram os mandantes. Na minha opinião, acho que determinadas pessoas que são apontadas como mandantes e que foram condenadas, para mim foram instrumentos de execução do assassinato. Há outros mandantes que, até hoje, estão na sombra. Por isso, digo que foi feita uma justiça parcial. Mas a justiça parcial foi feita porque a comunidade internacional se envolveu agressivamente para que fossem descobertos os autores do assassinato de Cardoso. O Presidente Chissano, em várias capitais internacionais, foi questionado sobre a morte de Carlos Cardoso e, só isso, é que tornou possível a investigação e o julgamento. Aliás, é importante singularizar o papel dos países nórdicos nessa pressão sobre Moçambique e da Grã-Bretanha. Este grupo de países fez uma grande pressão para que houvesse julgamento. E esse julgamento teve um grande impacto neste país e, para mim, um dos grandes exemplos é de ter surgido «chapas» que tinham nome de «meritíssimo». Isto traduz o sentimento popular que havia, sobretudo, porque o julgamento foi transmitido como se fosse uma telenovela. Aliás, uma das coisas que irritou a elite da Frelimo foi ver os «chapas» a circularem com a foto de Carlos Cardoso, após o seu assassinato, assim como ver pessoas «simples» a pararem no local, onde foi assassinado para prestar homenagem. Era um indivíduo muito popular. Acho que nós não tínhamos, em vida, a dimensão da imagem popular que ele tinha. Nós achamos que ele tinha importância no seio das elites, mas nunca imaginamos, no meu ponto de vista, o impacto da sua imagem. Eu cheguei a passar em algumas casas do subúrbio, onde tinham colado a fotografia de Carlos Cardoso, como se de um familiar se tratasse. Isso significa que, em vida, teve um grande impacto junto das pessoas simples, pelo menos nesta cidade”. (Abílio Maolela)

Fonte: Carta de Moçambique

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