EM termos de diversidade de obras, artistas, salas e história há poucas memórias sobre uma exposição com uma dimensão próxima a “Três Dimensões: Percursos, densidades e possibilidades”, patente até 30 de Outubro, na cidade de Maputo.

São mais de 50 peças de artesanato que abordam aproximadamente igual número de anos que estão expostas em três galerias dos centros culturais Brasil-Moçambique (CBM), que com duas salas acolhe mais obras, e Franco-Moçambicano (CCFM).

Este acervo, segundo o Giafranco Gandolfo, que assume a curadoria com o artista plástico e director do CCBM, Jorge Dias, está em três dimensões porque vai além da escultura da madeira. Traz para a reflexão trabalhos de argila e cerâmica, duas técnicas “que durante muito tempo não eram reconhecidas”.

Técnicas a parte, nas peças emprestadas de colecções particulares do Museu Nacional de Arte, T-Mcel, CCBM e CCFM, é igualmente explorada a evolução temporal do artesanato, tendo em conta as diferentes fases da história contemporânea de Moçambique. Assim, parte-se do período colonial (até 1975), passa-se pelo pós-independência (até o princípio da década de 1990) e culmina-se no multipartidarismo.

Através do artesanato da “Três Dimensões” é possível fazer uma leitura destes períodos – os dois primeiros – marcados pela guerra e, o terceiro, pela introdução do Estado de Direito Democrático, algo que se pode perceber pelas mensagens que directa ou indirectamente as obras partilham.

“O panorama das artes entra também num fértil processo de reflexão e criatividade”, escrevem Dias e Gandolfo. Referem que “se, nos primeiros anos da independência, o discurso político valorizava particularmente as artes como produto colectivo, no fim dos anos 1980 e início de 1990 há dois eventos marcantes que abrem novos espaços a actividade artística: O Acordo de Paz (1992), que põe termo à guerra civil em Moçambique e o fim do regime do apartheid (1994) na África do Sul”.

Isto leva o apreciador a, segundo Gianfranco, compreender três obras cujo autor e o nome de produção são desconhecidos e que mostram um pouco daquilo que foi a fase final do colonialismo. Fazem uma crítica social assente nos problemas da época, dentre eles a opressão, sem ignorar o olhar negativo para os que aderiram à política da assimilação dos indígenas.

Neste sentido, continuou o curador, há outros elementos como os rituais sagrados, igualmente, usados com muitos sentidos, dentre eles a crítica social contra os “militares que foram parte da luta contra os moçambicanos”.

O lado mitológico destas obras pode ser ainda visto através das máscaras usadas nas danças tradicionais, como o Mapiko, e que, de acordo com a curadoria, podem ser encaradas como sendo o ponto de partida da escultura, referindo ainda que desempenham uma função ritual, utilitária, comunicativa, lúdica e artística.

Entretanto, Jorge Dias, que destaca o facto de a escultura moçambicana não ser linear por discutir quase sempre as mesmas questões, acrescenta que apesar da grandeza da mostra, há ainda muita coisa a ser explorada. “Queremos ir um pouco mais do que o que está aqui patente”, adiantou.

Neste diapasão, “Três Dimensões” nada mais é senão uma provocação para, através das artes, se promover a educação cultural.

A exposição foi definitivamente montada em cinco dias, mas pensada há mais de dois anos e por duas vezes, por motivos diversos, viu a sua inauguração adiada até que este ano os curadores acharam que seria melhor inaugurá-la aquando do Festival Gala-Gala, que decorreu até ontem, sob a organização das casas culturais da cidade Maputo.

“Surgiu de uma conversa dos dois centros (CCBM e CCFM) com o objectivo de falar da história da escultura moçambicana”, considerou.

Para complementar a história do artesanato no país, fazem parte da “Três Dimensões”, no Centro Cultural Brasil-Moçambique, recortes de jornais nacionais e internacionais, com destaque para o matutino “Notícias” e o semanário “Savana”, que ajudam a compreender contextos particulares e recordar algumas das exibições que os organizadores consideram marcantes.

Fonte:Jornal Notícias

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