Imagens postas a circular, na terça-feira, nas redes sociais mostraram uma operação de “confisco” e contagem de valores monetários em quantidades milionárias.

 

A legenda remetia para uma operação visando actividade cambial ilícita na “Casa das Loiças”, uma cadeia de venda de utensílios de cozinha e louça diversa, com sede na Karl Marx, no coração de Maputo.

 

A legenda dizia mais ou menos assim: A brigada “foi levar 70 milhões de Meticais na “Casa das Loiças” por câmbio ilegal”. Tratou-se alegadamente de uma operação conjunta envolvendo a Autoridade Tributária, o SERNIC (Serviço Nacional de Investigação Criminal) e a Inspecção Geral das Actividades Económicas (Central).

 

“Carta” tentou obter mais detalhes por parte das autoridades. Uma fonte autorizada do SERNIC disse que a operação não tinha sido da sua instituição. O SERNIC só esteve lá a proteger, a acompanhar. Quem fez a operação foram as Alfândegas”.

 

Ao fim da tarde de ontem, contactamos o Porta-Voz da Autoridade Tributária, Fernando Tinga. Ele disse, citando o “Director de Investigação” da AT, que na terça-feira não tinha havido nenhuma operação daquela natureza. “Não houve nenhuma operação”, disse Tinga.

 

Por sua vez, uma fonte sénior da Inspecção Geral das Actividades Económicas (Central) disse à “Carta” que operações do escopo cambial não eram da sua alçada e, por isso, a INAE não pôde ter participado naquele violento evento.

 

Mas afinal, quem fez a referida operação? Onde está o dinheiro? Foram apenas 70 milhões? Porque é que ainda não houve uma informação oficial por parte das “autoridades”?

 

O caso deu-se por volta das 12:00 horas desta terça-feira. Cerca de 20 homens armados irromperam “Casa das Loiças” adentro, como se estivessem assaltando o refúgio de uma gangue altamente armada, foragida e perigosa. Mas era a “Casa das Loiças”.

 

As autoridades encontraram 70 milhões de Meticais na “Casa das Loiças”, de Ahmed Selemane, cuja família se instalou em Moçambique há mais de três gerações, com um negócio centrado na venda de loiças, tendo hoje expandido para cinco lojas.

 

Os cerca de 20 homens não apresentaram nenhum documento de busca e apreensão. Comunicaram oralmente que eram da Polícia, da Inspecção Geral das Actividades Económicas e da Autoridade Tributária. Vasculharam o recinto a pente fino.

 

Os homens só deixaram a loja por volta das 18:00 horas. Ao longo da sua presença, o estabelecimento teve de ser encerrado. Durante a acção, um funcionário tentou justificar documentalmente a proveniência dos fundos, que não coincide com os 70 milhões referidos como tendo sido capturados, mas isso foi negado.

 

Fonte de “Carta” disse que a “Casa das Loiças” tem os impostos em dia e não desenvolve outro tipo de negócios para além do que é conhecido. Ela asseverou que a circulação de imagens do alegado confisco nas redes sociais visou denegrir o estabelecimento. Na referida operação, os advogados da loja também não foram tidos nem achados.

 

Uma das narrativas que está sendo plantada é a de um alegado envolvimento da família da “Casa das Loiças” nos raptos. Uma fonte da comunidade Mahometana disse que essa suposição era bizarra, pois a família tem sido uma das vítimas do fenómeno.

 

Há dez anos, um dos filhos de Ahmed Selemane foi raptado em Maputo. “Para além de um familiar directo, eles já tiveram primos, tios amigos raptados”, disse a fonte, acrescentando que parte da família da “Casa das Loiças” está fora do país, justamente fugindo dos raptos.

 

Nalguns círculos empresariais de Maputo comenta-se que o que se passou foi a exposição de um novo modus operandi do crime organizado roubando dinheiro sob capa do Estado. E há mesmo quem sugira que, com o aproximar das eleições, este tipo de “confisco violento” sob capa do Estado vai aumentar, afugentando agentes económicos e investidores para fora do país, efeito similar ao dos raptos. (Marcelo Mosse)

Fonte: Carta de Moçambique

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