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Numa semana marcada pela proposta do Secretário-Geral da Frelimo, Roque Silva, em atribuir nomes dos membros da Renamo a cada buraco que corporiza a Estrada Nacional Nº 1, o Cardeal Católico italiano Matteo Maria Zuppi defende a necessidade de se evitar a humilhação e desprezo dos outros, como forma de manter a paz efectiva no país.

 

A tese foi defendida na última sexta-feira, em Maputo, durante a Conferência sobre os 30 anos de Paz em Moçambique, organizada pela Comunidade Sant’Egídio. Lembre-se que, no próximo dia 04 de Outubro, Moçambique celebra 30 anos após a assinatura do Acordo Geral de Paz, que marcou o fim da guerra civil que opunha o Governo da Frelimo e o movimento armado, Renamo.

 

Para o Arcebispo da Arquidiocese de Bolonha (Itália), que integrou a equipa de mediação das negociações que culminaram com a assinatura do Acordo Geral de Paz, a 04 de Outubro de 1992, a paz é como um corpo humano, que precisa de todos os cuidados. “Quando deixa uma ferida sem cuidar, ela vai criar problemas”, defendeu.

 

“Nunca deixar um problema sem solução. Isso é um risco. (…) A paz precisa sempre de ser cuidada. Nunca deixar problemas sem soluções, ou humilhando os outros, ou desprezando os outros, porque, infelizmente, aquele problema pode tornar-se num problema sério. O mal não está parado, continua a fazer divisões, então, a paz também não pode ficar parada”, defendeu Zuppi, quando questionado sobre os desafios que Moçambique tem na consolidação da paz, após a assinatura de três acordos de paz.

 

Moçambique, recorde-se, registou a assinatura de mais dois acordos de paz após o Acordo de Roma. O primeiro acordo foi assinado em Setembro de 2014, entre Armando Guebuza e Afonso Dhlakama, visando pôr fim aos ataques militares na zona centro do país, que tinham reatado em 2013. O segundo foi celebrado em Agosto de 2019 entre Filipe Nyusi e Ossufo Momade e visava pôr término ao conflito pós-eleitoral gerado em 2015.

 

Contudo, o religioso entende que os moçambicanos continuam a ser um exemplo, no mundo, no concernente à defesa e implementação de acordos de paz, podendo inspirar os países que ainda continuam em conflito.

 

Recuando no tempo, o actual Presidente da Conferência Episcopal Italiana contou que um dos problemas que dividia a Renamo e a Frelimo, durante os 28 meses de negociações (de Junho de 1990 a Outubro de 1992) era reflectir as reivindicações da Renamo na Constituição da República, pois, o movimento liderado por Afonso Dhlakama dizia ter sua própria constituição, enquanto a Frelimo também tinha a sua “lei-mãe”, a que usava para organizar as instituições do Estado.

 

Numa conferência que teve a participação do Governo moçambicano, através do vice-Ministro da Justiça e Assuntos Constitucionais, Zuppi sublinhou que o secretismo foi uma das peças-chave para o sucesso das negociações, pois, a primeira tentativa de negociação, que devia ter tido lugar em Nairobi, capital do Quénia, não avançou devido à sua publicitação.

 

Aos presentes no evento, Matteo Zuppi, de 67 anos de idade, disse que a comunidade Sant’Egídio interessou-se pela pacificação de Moçambique em 1984, após testemunhar o drama humanitário que assolava o país, causado pela guerra, seca severa e cheias.

 

“Encontramos um país sem nada. Então, entendemos que, no lugar da assistência humanitária, o país precisava de paz”, defendeu, sublinhando que a Comunidade Sant’Egídio entrou como facilitadora, porém, acabou sendo mediadora a pedido das duas partes beligerantes.

 

Refira-se que, para além de Matteo Zuppi, integraram a equipa de mediadores das negociações dos Acordos de Roma, Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Sant’Egídio; o falecido Arcebispo de Beira, Dom Jaime Gonçalves, em representação das confissões religiosas moçambicanas; e Mário Raffaelli, em representação do Governo italiano. (Carta)

Fonte: Carta de Moçambique

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